quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

IGUARIAS LOCAIS - MARROCOS

Não é, certamente, segredo para quem me conhece que comer é coisa que aprecio seriamente.
Em viagem não é exceção. É certo que os orçamentos de viagem têm de ser quase sempre esticados até ao limite e admito que o supermercado mais próximo do hotel é sempre um "fiel amigo" para não ultrapassar o budget definido. Contudo, não dispenso a prova das iguarias locais que enriquecem a lista de motivos pelos quais visitar um destino. Tenho uma lista para vários paladares, mas tenho também a dificuldade de indicar preferências absolutas. Nesta primeira abordagem ao mundo gastronómico, seguem os sabores de Marrocos.

 CHÁ DE MENTA
É, provavelmente, o embaixador da hospitalidade marroquina. Quase que não há local onde se entre (especialmente hotelaria e restauração), em que não nos seja oferecida esta delícia de bebida quente, que em nada se compara àquela coisa que vem dentro de saquetas e se compra no supermercado. 
Nem sempre o chá é exclusivamente feito com menta. O paladar denota a existência de outras ervas, que uma leiga no assunto como eu não consegue identificar. 
A forma como é servido, por quem sabe fazê-lo, reforça o seu charme.

Chá de menta e biscoitos à chegada - Riad Rose du Desert, Marraquexe

Chá de menta à chegada - Auberge du Sud, Merzouga

SUMO DE LARANJA
É a bebida refrescante e nutritiva por excelência para todos os que chegam à Jemma El Fna ou em qualquer pequeno almoço. A oferta parece quase inesgotável e o preço fixo - 4 Dh. Pessoalmente, não sou grande fã de grumos e caroços, pelo que não fiquei deveras impressionada. Na última noite de estadia lá bebi um que me agradou, mais "filtrado".

Banca de venda de sumo - Praça Jemma El Fna, Marraquexe

CARACÓIS
Existem às dúzias na maior praça do norte de África - Jemma El Fna - e espalhadas em número considerável por Casablanca, as bancas que vendem um dos petiscos mais apreciados pelos portugueses - caracóis. O aspeto e a fragância apelam ao visitante, já o sabor desilude. Falta apurar o tempero...

Caracóis - Praça Jemma El Fna, Marraquexe


PANQUECAS MARROQUINAS
 As panquecas marroquinas são um item obrigatório em qualquer pequeno almoço no sul do país.  Eu deliciei-me a comê-las e o sabor destas apresenta um fator de conforto quase inexplicável. São como comida de casa, sem nunca terem sido feitas na mesma (não na minha, pelo menos). Têm, geralmente, forma de quadrado e encontram-se também à venda nas ruelas da medina de Marraquexe. Estaladiças, crocantes e saborosas, fazem as delícias de locais e visitantes.

Panquecas ao pequeno almoço - Riad Rose du Desert, Marraquexe

Panquecas ao pequeno almoço - Riad Bouchedor, Ouarzazate


Panquecas ao pequeno almoço - Acampamento beduíno, Erg Chebbi


TAGINES
Tagine é um prato típico em diversos países do norte de África e é também o nome do utensílio em que o prato é confecionado, sendo composto por um prato e uma tampa em forma de cone, regra geral uma peça de barro. A viagem pelo sul de Marrocos deu-me a conhecer os seus sabores, que podem ser diversos. Provei imensas, mas tenho de confessar uma predileção por uma tagine de vaca e frutos secos, com acabamento de ovos cozidos e sementes de sésamo, que comi algures num lugar perdido na Cordilheira do Atlas. A suculência da carne a separar-se do osso foi uma experiência quase em primeira mão para mim, que penso nunca ter visto carne de vaca de tão boa qualidade. Isto para não falar no sabor rico e na textura tenra.
Existem tagines de tudo e mais alguma coisa: legumes, frango, cabra, vaca, peixe (sardinha enlatada)... mas creio que os segredos são os temperos.
Em Marraquexe, particularmente, creio que há um ambiente propício a comer uma tagine ou outro prato típico, dado que se come no caos e o caos desta cidade tem o seu encanto. Burros, motas, carros e pessoas transitam desordenadamente, turistas envolvem-se neste ritmo próprio, cheiros de especiarias, cozinhados e poluição convivem em paralelo.
Comprei uma tagine para cozinhar em casa, mas confesso que ainda não a estreei... 

BROCHETTES
A primeira vez que ouvi tal palavra, julguei estar a ouvir falar das famosas bruschetas - aquelas fatias de pão que levam tomate picadinho por cima e um fio de azeite (ou muitas outras variantes) - e estava eu totalmente equivocada. A palavra é francesa e não italiana e daí a minha confusão. Brochettes são, afinal, espetadas e são mais uma maravilha gastronómica de Marrocos.
Só encontrei de frango. Regra geral, são pinceladas com açafrão (que parece que anda ao preço do ouro - 8000€/Kg) e daí o seu aspeto amarelado. Comi as melhores num restaurante das Cascatas de Ouzoud e as piores na Praça Jemma El Fna, na banca nº1. Deu-me ideia que já estavam feitas há bastante tempo e que teriam sido reaquecidas, o que as teria ressequido.

SALADAS
Quentes e frias, são quase obrigatórias em todas as refeições. Incluem legumes diversos, arroz, batata, mas o que as pode diferenciar, além da temperatura, é o tempero. Confesso que não fiquei fã, mas que achei a salada mais tolerável na noite passada no deserto, confecionada pelos berberes que vivem no próprio acampamento.

Tagine de legumes (canto inferior direito), salada de tomate (centro) e Brochettes (canto inferior esquerdo) - Praça Jemma El Fna

Tagines de frango (esquerda) e vaca (direita) com frutos secos. A da direita foi, em toda a viagem, a minha tagine de eleição - Alto Atlas

Salada quente - Alto Atlas

Salada fria - Riad Bouchedor, Ouarzazate

Tagines de frango (direita) e vaca (esquerda) no acampamento beduíno - Erg Chebbi


Tagines ao lume - Cascatas de Ouzoud

Tagine de cabra e brochettes - Cascatas de Ouzoud

Salada fria - Cascatas de Ouzoud

Brochettes, salsichas e salada de tomate - Mellah (Bº Judaico), Marraquexe

Salada fria - Restaurante panorâmico, Praça Jemma El Fna, Marraquexe

Tagine de Frango - Restaurante panorâmico, Praça Jemma El Fna, Marraquexe


sábado, 18 de janeiro de 2014

FOME DE MUNDO

Recentemente vi o vídeo desta jovem espanhola e tenho a leve desconfiança que ela me leu a alma. Eu tenho fome de mundo. Parece que ela também.
Não será compreensível à maioria este modo de estar. Nem é suposto que seja. 
Sem me querer alongar nas palavras, é isto mesmo (com a pequena diferença de que... me gusta volar).


quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

PÉROLA TUNISINA

Banhada pelo calmo e harmonioso Mediterrâneo e em plena costa tunisina, está a cidade de Mahdia, um autêntico paraíso balnear (felizmente) pouco explorado, mas repleto de história.
Dista a 4h de Tunis de carro ou autocarro, possivelmente um forte motivo para se tornar pouco atrativa aos pacotes turísticos vendidos em massa pelas agências. Só os mais convictos aqui chegam e se hospedam. É bela e serena, completamente fora dos padrões do habitual contexto balnear tunisino que caracteriza Hammamet, Sousse, Port El Kantoui ou até mesmo a vizinha Monastir. Não tem enchente de turistas, o que facilita o avistamento dos locais nas suas funções habituais.
O peixe é o ouro da terra e traz o pão à mesa na casa muitas famílias. A pesca é uma das atividades mais representativas da cidade e o seu porto é um autêntico "reboliço" quando o peixe chega a terra, ora para vender de imediato, ora para conservar numa das fábricas de conserva ali instaladas.
Mas não só de peixe vive Mahdia. Mais para oeste existe um imenso olival, cujas azeitonas dão origem ao valioso azeite que também é usado como matéria prima na produção de sabão. 
Aliado à pesca e à produção de azeite está o artesanto, à semelhança do que acontece no resto do país. Trabalhos com têxteis, joalharia, couro, madeira e outros materiais estão bem presentes por aqui e encontram-se com facilidade nas lojas que dão vida à medina. 
Quem vagueia pelas ruas da cidade não tem, provavelmente, noção da história que conta esta cidade pacata, à beira mar situada. Mahdia foi "poiso" de fenícios, cartagineses, romanos, fatimidas, caridjitas, ziridas, normandos, almóadas, venezianos, genoveses, berberes, otomanos, espanhóis. Todos os povos que por ali passaram viram nela oportunidades, daí que tenha sido cercada por diversas vezes e tenha sofrido imensas tentativas (e não só tentativas) de ataques de invasão marítima.
A 6 km da costa está uma das mais maiores preciosidades do país, no âmbito da arqueologia submarina: um navio naufragado que data do século I A.C., repleto de objetos de arte ateniense, só descoberto há pouco mais de um século.
Visitei o centro da cidade numa tarde de fim de verão a seguir ao almoço, verão esse ainda algo quente. Por terras do Magrebe o calor não faz as malas com facilidade. A caminhada foi iniciada junto ao mar, percorrendo o passeio marítimo de ótima qualidade à disposição de locais e turistas que aqui contemplam a beleza do mar ou acedem à praia. Uma rotunda faz revelar o seu produto mais nobre e popular com uma escultura gigante. Mais à frente avistam-se uma sereia, pedras pintadas e ao fundo fachadas cobertas de cal e portas azuis. E o azul. O azul de um mar fértil e imenso. O coração da cidade aproxima-se a passos largos e a porta da medina impera junto a uma rotunda decorada a mosaicos com mais do mesmo - peixe. A porta é grandiosa, obra do século X - Bab Zouila. Na época, em 2010, a foto do presidente vigente reflete ainda um período negro da história do país. Cheira a especiarias. Há bancas de rua a vendê-las. Desbravamos medina e encontramos a Grand Mosquée, em estilo peculiar: sem minarete. Embora o aspeto ocidental rapidamente denuncie tanto a mim como a qualquer outro elemento do grupo que comigo segue, percorremos o pátio e olhamos com descrição o interior de uma das salas de oração. Pouco conseguimos ver além dos vigilantes com cara de poucos amigos. Seguimos rumo ao cemitério junto ao mar, com campas de um e outro lado da estrada. No caminho contempla-se uma arquitetuta explêndida em portas e janelas de execução elaborada. Todas as campas têm a sua cabeceira virada para Meca, local sagrado para os muçulmanos. São de todos os tamanhos os túmulos e culminam junto ao que sobrou da fortificação, que em 1554 os espanhóis fizeram explodir ao abandonarem a cidade. Próxima paragem no forte de Borj el Khabir, que data do século XVI, onde se tiram fotos nos canhões ainda presentes. Num regresso ao centro encontra-se a Tunísia em estado puro, onde nem um único turista (além de nós) se avista. Veêm-se portas e portas, todas diferentes, todas únicas. Uma escola. Um minarete de arquitetura turca (formato hexagonal). Crianças que brincam na rua. Vendedores que nos aliciam a entrar nos seus estabelecimentos. À saída da medina uma tatuadora que com gestos rápidos e precisos cria arte com hena na pele das mulheres que ali recorrem. No terminar da tarde, um regresso ao hotel de tuc-tuc, depois do regateio necessário com o motorista, com muitos risos e gargalhadas acompanhados de um vento refrescante junto à marginal.
Mahdia...Linda.